A noção fenomenológica de existência e as práticas psicológicas clínicas

Roberto Novaes de Sá

 

Uma das contribuições mais fundamentais da fenomenologia para a psicologia é a compreensão do modo de ser do homem como “existência”, tal como elaborada por Heidegger em sua obra “Ser e tempo”, de 1927. Embora de uso corrente nas chamadas psicologias fenomenológico-existenciais, nas correntes humanistas e mesmo tendo ganhado estatuto conceitual em outros discursos clínicos, a noção de “existência” carece ser permanentemente problematizada com relação a sua compreensão própria, pois a radicalidade que a torna um diferencial na história recente das idéias filosóficas e psicológicas tende a ser facilmente perdida em prol de um nivelamento com as concepções naturalistas mais usuais sobre o ser do homem. Essa dificuldade não deriva simplesmente de uma negligência voluntária dos psicólogos que utilizam o termo. A noção de “existência” só pode ser devidamente compreendida à luz de uma atitude, ou modo específico de atenção que, segundo Husserl, não é aquele em que nos encontramos naturalmente na vida cotidiana, nem mesmo quando empregamos a racionalidade científica para abordar a realidade. A expressão “atitude natural” denomina nossa tendência de tomar todas as coisas que encontramos no mundo como se já sempre estivessem dadas aí, indiferentes à nossa relação de sentido com elas. O próprio sujeito é tomado como algo dado dentro de um mundo pré-existente a ele. A diferença entre o modo de ser do sujeito e o das outras coisas restringe-se, a partir de uma ontologia cartesiana, em ter ou não uma natureza extensa, mas, para aquém desta diferença, ambos são ainda simplesmente dados dentro do mundo. Colocar-se numa perspectiva fenomenológica é suspender essa suposição “natural” de uma realidade “em si”, realizar uma epoché, retornando para as coisas apenas enquanto dadas à experiência. É envolver-se em um modo de atenção em que experienciamos com toda evidência que o mais “concreto” não é essa suposta “realidade em-si do mundo”, o mais “concreto” é sempre o próprio acontecimento imanente da “experiência” enquanto dinâmica constitutiva de sujeito e objeto.

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Roberto Novaes de Sá

Professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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