Ideias acerca de uma psicologia descritiva e analítica

Wilhelm Dilthey

 

É o presente escrito um dos mais interessantes de Wilhelm Dilthey (1831-1911). Não pela diversificação ou pela riqueza interna de temas, mas pela singular densidade com que aborda um problema fundamental que assediou o filósofo em grande parte da sua vida: como fornecer às ciências do espírito, de recente formação e em plena expansão, um fundamento epistemológico que estabelecesse a sua originalidade, a sua índole genuína, a sua autonomia, o carácter autóctone e irredutível dos seus problemas e das suas realidades, a sua incomensurabilidade com as ciências da natureza.

Não era, pois, intento seu travar uma guerra entre os dois grupos de saberes desenvolvidos na cultura ocidental, nem oferecer um modelo de ciência humana que se regulasse pela bitola ou pelos procedimentos da ciência natural, mas antes tentar fornecer um princípio de unidade funcional, que os situasse na sua fonte comum – a nossa imaginação criadora –, para depois respeitar, sem falsas identidades e confusões, a especificidade, a modalidade cognitiva, as metodologias típicas de cada complexo de saberes.

A motivação nuclear de W. Dilthey era polémica: cedo deu pela sedução que o êxito das ciências naturais exercia em muitos filósofos e nos investigadores do universo humano, induzindo-os a adoptar o pressuposto mecanicista, subjacente à prática e à interpretação dessas ciências. O alvo da sua crítica era o conjunto das ciências humanas ("ciências do espírito") que se formara, se instituíra e se autocompreendia à luz de ideias que promanavam de Th. Hobbes, B. Espinosa e D. Hume. Impugnava, portanto, uma certa tradição filosófica de materialismo com a sua pretensão de interpretar a vida humana, na sua integralidade, com o instrumental e a convicção naturalistas.

A reflexão diltheyana, no seu processo de maturação e aprofundamento,recebeu influxos de três fontes: em primeiro legar, a inspiração kantiana, com a sua proposta do a priori enquanto estruturador da experiência humana nos três níveis da sensibilidade, do entendimento e da razão. Mas, para Dilthey, o a priori kantiano era inaplicável ao carácter inédito da realidade histórica; por um lado, ao pretender dilucidar o estatuto da metafísica, polarizou-se excessivamente em torno da ciência natural e da matemática; depois, ostenta um giro abstracto e insensível à densidade e ao devir históricos no seu desdobramento criativo, que suscita diversas culturas e obras díspares em cada época cultural; além disso, enquadra-se numa concepção que fracciona, decerto involuntariamente, a experiência humana global, sem conseguir estabelecer um convincente elo de ligação ente a razão teórica, a razão prática e a actividade estética. O a priori surgirá, pois, em Dilthey essencialmente como o elo, o vínculo, a conexão, a tessitura ou a contextura da vida psíquica, que acontece, flui e se intui sempre como uma unidade, que se exterioriza e manifesta nas obras culturais de toda a espécie, mas se furta a uma apreensão total.

Outra fonte é a lição hegeliana, com o seu conceito de realidade enquanto processo da mudança histórica. Dilthey acolhe o relevo dado à história como campo de realização das virtualidades da razão dos homens, portanto o peso e as possibilidades criativas do tempo histórico, cujos limites ninguém nem filosofia alguma (ou qualquer outra obra cultural) consegue ultrapassar. Deixa, porém, de lado a razão absoluta de Hegel, a sua metafísica do Absoluto em devir e a necessária peregrinação do Espírito universal ao longo da história.

A terceira fonte é Schleiermacher, com a sua descoberta e o seu realce da unicidade e da peculiaridade dos indivíduos humanos e do elemento comum que eles partilham; e também com a sua acentuação do jogo da vida, que se distende no contraste de receptividade e espontaneidade, de universal e particular, de unidade e diversidade, de interioridade e exterioridade, de comunidade e indivíduo, de forma social e unilateralidade pessoal [cfr. F. Schleiermacher, Texte zur Pädagogik, I, Francoforte, Suhrkamp, 2000, pp. 214-216; 292-297]. Foi possivelmente com o grande teólogo que Dilthey discerniu o significado fundamental da categoria da ‘vida’. O seu trabalho ulterior consistiu em extrair dela todas as consequências possíveis.

 Leia o artigo na íntegra

 

Wilhelm Dilthey

(1833 - 1911) Filósofo alemão da tradição hermenêutica. Se ocupou de pensar o caráter próprio às ciências humanas, diferenciando-as das ciências naturais em seu método de acesso aos fenômenos.

Esse espaço é dedicado à divulgação de textos relevantes no âmbito da Psicologia fenomenológica e hermenêutica.

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