Já só um deus ainda pode nos salvar

Entrevista concedida por Martin Heidegger a revista alemã Der Spiegel em 23 de Setembro de 1966 e publicada no nº 23/1976

 

DER SPIEGEL: Senhor Professor Heidegger, temos constatado repetidas vezes que a sua obra filosófica é, de certa maneira, ensombrada por acontecimentos pouco duradouros mas nunca esclarecidos da sua vida, seja por orgulho da sua parte, seja porque o senhor não considerou adequado pronunciar-se acerca deles

M. HEIDEGGER: Refere-se a 1933?

DER SPIEGEL: Sim, ao que antecede esse ano e ao que sucede depois. Gostaríamos de situar esses acontecimentos numa conjuntura mais ampla, como ponto de partida para a formulação de certas perguntas que nos parecem importantes, no estilo de: que possibilidade há de agir sobre a realidade - inclusive, sobre a realidade política - a partir da filosofia? Ainda existe esta possibilidade? E, se a há, como se consegue?

M.H.: São questões bem importantes e não sei se serei capaz de responder. Mas devo, em primeiro lugar, dizer que antes de ser reitor eu não tinha participado de nenhuma maneira em actividades políticas. Durante o semestre de inverno de 1932/1933 tinha estado de licença e passado a maior parte do tempo no meu refúgio.

DER SPIEGEL: De que maneira veio a tornar-se reitor da Universidade de Friburgo? 

M.H.: Em Dezembro de 1932, fora eleito reitor o meu vizinho von Möllendorf, catedrático de Anatomia. A tomada de posse do novo reitor realizou-se a 15 de Abril nesta Universidade. Durante o semestre de Inverno de 1932/1933, tinhamos amiúde conversado acerca da situação não só política, mas, sobretudo, da Universidade e da falta de perspectivas dos estudantes. A minha apreciação era a seguinte: tanto quanto posso avaliar, a única possibilidade que nos resta é a de procurar tirar proveito do processo que se avizinha com as forças construtivas que ainda estão realmente vivas. 

DER SPIEGEL: Via, assim, uma conexão entre a situação da universidade alemã e a situação política em geral da Alemanha?

M.H.: Como é natural, estava atento aos acontecimentos políticos ocorridos entre Janeiro e Março de 1933 e falara ocasionalmente disso com colegas mais jovens. Mas o meu trabalho tinha-me permitido realizar uma interpretação mais ampla e mais rica do pensamento pré-socrático. Voltei a Friburgo a princípios do semestre de Verão. Entretanto, a 16 de Abril, o Professor von Möllendorf tinha tomado posse do seu cargo. Duas escassas semanas depois, foi destituído pelo então Ministro da Cultura de Baden [Wacker]. O pretexto - que se supõe ansiado - para esta decisão consistiu no facto de o reitor ter proibido que se afixasse na Universidade o chamado “cartaz dos judeus”.

Leia o artigo na íntegra 

 

Martin Heidegger

(1889 - 1976) Filósofo alemão, aluno de Edmund Husserl. Considerado um dos principais pensadores do século XX, incorporou o pensamento hermenêutico à fenomenologia. Cunhou o neologismo Dasein, que aponta para o ser do homem como existente, indeterminado originariamente.

Esse espaço é dedicado à divulgação de textos relevantes no âmbito da Psicologia fenomenológica e hermenêutica.

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