FENOMENOLOGIA DA TRANSGRESSÃO

A fenomenologia nasceu como a arte do reaprendizado do ato de ver. Sim, a fenomenologia quer ver, pois quase nunca vemos. Percebemos o que acrescentamos àquilo que se mostra. Enxergamos mistérios, causas, efeitos, fundamentos, transcendências, normas, leis, verdades absolutas. Bem sabia Alberto Caeiro: “pensar é estar doente dos olhos”. É que pensar é quase sempre acrescentar: desdizer, desfazer, desqualificar o que se mostra em nome de um outro lugar, a casa natal das transcendências metafísicas. Por isso mesmo, um outro pensamento só é possível por meio de olhares não adoecidos. Fenomenologia é saúde do olhar. É ver, sem desfazer o visto; é acolher o que se mostra, sem a ingratidão de acréscimos de fundamentos ocultos. Para isso, é preciso romper olhares, desaprender cacoetes, reinventar os olhos.

Quando Husserl exigiu da fenomenologia a ruptura com a atitude natural e Heidegger compreendeu o gesto fenomenológico como coragem de arrancar o fenômeno do seu ocultamento, ambos inscreveram a transgressão como essência da fenomenologia. Sem a transgressão de olhares míopes, o que se mostra não se mostra de fato.

Contudo, fenômenos aparecem nas malhas da história, na carnalidade do mundo. E o mundo, como se sabe, se estabiliza mediante estratégias de ocultamentos, invisibilidades, naturalizações. É aí que a polissemia dos fenômenos dá voz à monotonia das homogeneidades. É aí que as alteridades são sequestradas pelas identidades. Fazer fenomenologia é, nesse caso, transgredir as naturalizações históricas, os sequestros da pluralidade dos fenômenos e as identidades absolutas.

Vivemos no tempo das muitas invisibilidades. Todas elas têm história; todas elas formam nossa história. Somos, portanto, a história do sequestro dos fenômenos que aparecem, para não serem vistos. Por isso, uma fenomenologia das alteridades humanas, certamente, é uma fenomenologia da transgressão. Como falar de alteridade abstratamente, se as alteridades têm nomes próprios? São mulheres, existências negras, mães solteiras, comunidades de povos originários, prostitutas, LGBTNQI+ ? É preciso pensar uma fenomenologia feminista, uma fenomenologia negra, uma fenomenologia trans etc. E o que dizer da ecofenomenologia? E a fenomenologia das alteridades de si mesmo? Não somos refém das identidades normativas de um mundo histórico cuja solidez se deve à força de suas normatizações?

Eis o desafio da transgressão fenomenológica: promover sempre fenomenologias da transgressão. Lembro, todavia, que transgredir não é, necessariamente, agredir. Transgredir é ruptura criativa. É o casamento sempre feliz entre “nãos” desconstrutivos e “sins” afirmativos. É dissolução de miopias e afirmação da potência do verbo ver. Mas, no nosso tempo, isso não se faz somente descrevendo fenômenos, mas transformando também as situações de invisibilidade. Assim, fenomenologia se faz política, porquanto se envolve com transgressões históricas; mas, também se faz poética, porque quer criar espaços para que fenômenos invisíveis voltem a brilhar. Fenomenologia da transgressão é, em verdade, a virada poético-política da história da arte de ver.

 

Série: Pensamentos Imperfeitos

Participantes: Beto Machado, André Sendra de Assis, Marco Antonio Casanova, Alexandre Cabral

Texto por: Alexandre Cabral; Instituto Dasein.

Esse espaço é dedicado à divulgação de vídeos relevantes no âmbito da Psicologia fenomenológica e hermenêutica.