O tédio como experiência ontológica, aspectos da daseinsanalise heideggeriana 

Irene Borges-Duarte

 

Quando, em 1947, na ressaca do final da II Guerra Mundial, o psiquiatra suíço Medard Boss, perturbado e fascinado pela leitura de Ser e Tempo, escreveu a Heidegger para lhe solicitar alguns esclarecimentos, não esperava receber tão rápida resposta. Deste inicial contacto epistolar surgiu uma relação longa e prolífica, que se estendeu até a morte do filósofo, 1976, e que, de várias maneiras, deu expressão ao que na obra de 1927 aparecia como o ser do aí-ser ou Dasein humano: o cuidado.

Cuidado enquanto amizade: aquela amizade que uniu dois homens preocupados como mundo convulsivo e desenraizado, cada vez mais afastado de tudo o que escape à presente programação tecnológica do futuro e à interpretação ideológica do passado. Cuidado enquanto exercício vocacional, aproximando o médico e professor de psiquiatria de Zurique do velho professor, despojado da sua cátedra e proibido de leccionar, na procura comum de uma via de compreender os caminhos errantes da existência humana, na sua imanente temporalidade, e capaz de fazer frutificar o pensamento filosófico no âmbito ”demasiado humano”, mas não menos ontologicamente relevante, do patológico, almejando ambos alcançar curativamente dimensões da experiência do mundo marcadas pelo sofrimento e a renuncia ao mundo dos outros. Cuidado, enfim, enquanto prática docente, na organização e empreendimento comuns daquilo que foram, na década entre 1959 e 1969, os seminários de Zollikon, esteio de uma nova via psiquiátrica que, sem excluir outras práticas e teorias, tentou coordenar uma atenção ao abrir-se do humano ao ser, que sem se encerrar na oposição normal-patológico, inequivocamente axiológica, cuida de acompanhar a proteica manifestação da verdade da álgida agudeza da lucidez e do delírio. Esta escola fez, por sua vez, escola, fora do âmbito psiquiátrico e mais próximo do que hoje tende a chamar-se “acompanhamento” ou “consulta” filosófica, abrindo uma possibilidade quer de “aplicação”, quer de “intervenção” ao nível do quotidiano daquilo que, de contrário, tenderia a ficar encerrado nas prateleiras da biblioteca ou nas aulas de filosofia: o pensamento e a linguagem heideggerianas, a que Adorno, tão brutal como despectivamente chamou, Jargon der Eigenlichkeit, “calão de autenticidade”.

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 Irene Borges-Duarte

Nascida em Lisboa em 1952. Formação em Filosofia nas Universidades de Lisboa (Licenciatura, 1964; Mestrado 1988) e Madrid (Doutoramento, Universidade Complutense, 1994), e em Fenomenologia em Freiburg im Breisgau e em Mainz. Professora associada na Universidade de Évora, aonde chegou em 1996, depois de varios anos de investigação e ensino na Universidade Complutense de Madrid. Actual Directora do Curso de Doutoramente em Filosofia (UÉ). Presidente da Associação Portuguesa de Fenomenologia (desde outubro de 2011). Membro da Associação POrtuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psinalaítica. Membro do Advisory Board da revista Heidegger-Studies (Berlim)

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