Psicologia pós-identitária: (re) pensando a psicologia entre Nietzsche, Heidegger e Foucault

Início 15 de março de 2019, sextas-feiras das 14h às 16h

Professor Alexandre Marques Cabral

Psicologia pós-identitária é uma expressão que visa a assinalar um modo de pensar-fazer psicologia que não se movimenta no interior de regimes discursivos identitários. Isso porque o que se entende por regime discursivo identitário se identifica com um modo específico de conceber a noção de identidade, a saber, o modo metafísico, que promove a moralização da existência e dos saberes “psi” em geral, por meio da produção de ideais reguladores universalmente válidos, geralmente possuidores de substancialidade ontológica. Exatamente a relação entre metafísica e identidade acaba por transformar as práticas “psi” em índices de moralização e retificação da existência. Isso acaba por retirar da condição humana a possibilidade de performar-se criativamente ou singularmente, fora dos quadros normativos e códigos morais universalizáveis.

Para que consigamos pensar uma psicologia pós-identitária, operacionalizaremos alguns autores que viabilizem pensar a possibilidade de um saber-fazer “psi” fora da normatividade dos discursos identitários. Dessarte, começaremos com a caracterização da desnaturalização nietzschiana da noção metafísica de psiquismo. Nietzsche, por meio da afirmação-constatação do acontecimento histórico-ontológico da morte de Deus, assinala a necessidade e a urgência de “superação do homem”, expressão que depende diretamente da perda dos referenciais metafísicos da tradição. Dessa forma, surge a tarefa da criação-cultivo do além-do-homem, tipo vital que se estrutura por meio de um modo de ser refratário a toda e qualquer normatização metafísico-identitária. Com a tematização do pensamento nietzschiano, conquistaremos o horizonte hermenêutico necessário para se compreender o lugar e a tarefa da psicologia pós-identitária.

Em um segundo momento, será preciso caracterizar a noção metafísica de identidade e seus efeitos normatizadores, isto é, produtores de certos modos de ser moralmente codificados. Ora, se a noção metafísica de identidade fabrica vida normatizadas, qual é o modo de ser da “vida”, que a permite ser configurada por algum processo de normatização? Trata-se de um modo de ser existencial, que inicialmente não é marcado por qualquer propriedade identitária, mas que, historicamente, torna-se refém de certas identidades culturalmente hegemônicas. Daí a necessidade de se questionar qual a relação entre existência e identidade, em diálogo com autores como Heidegger, Sartre e Arendt.

A partir da tematização anterior dos conceitos de identidade e existência, é preciso questionar a relação entre identidade e sujeição, uma vez que regimes prático-discursivos de normatização sempre produzem existências sujeitadas. Para compreender essa relação, é mister percorrer alguns elementos do pensamento foucaultiano para pensar como diversas forças de estruturação culturas (poderes) configuram existencialmente o sujeito sob o modo da sujeição.

Por fim, devemos caracterizar um dos exercícios de poder hegemônicos da nossa cultural, a saber, o poder pastoral, que funciona tanto no cristianismo dos primeiros séculos, quanto nas práticas clínicas da psicologia moderna. A partir disso, devemos enfrentar a questão: como se estrutura a clínica fora do poder pastoral e do modo como tal poder fabrica existências sujeitadas por modos identitátios de ser? Lançaremos mão da ideia foucaultiana de cuidado de si e da noção de espelho presente tanto em Foucault, quanto em Guimarães Rosa e Machado de Assis para pensar uma clínica da arte de si, clínica esta que não se orienta pela noção de identidade.

 

Conteúdo programático

 

  1. Nietzsche e a desconstrução do psiquismo

 

  • Da morte de Deus à genealogia do sujeito psicológico
  • Da superação do “homem” à performance do além-do-homem
  • Corporeidade e psiquismo
  • Sobre a outra tarefa da psicologia

 

  1. Identidade e existência

 

  • Identidade e normatização moral
  • Variações da performatividade existencial: dialogando com Heidegger e Sartre
  • A unicidade existencial: entre Heidegger e Hannah Arendt

 

  1. Subjetividade e sujeição
    • Da impropriedade às relações político-culturais de poder: uma questão foucaultiana
    • Sujeição e poder: entre Foucault e Butler
    • Dois exemplos de subjetividade sujeitada: sobre o poder disciplinar e o dispositivo de sexualidade

 

  1. O poder pastoral e a clínica da arte de si
    • Poder pastoral e a hermenêutica do sujeito
    • Contrastando poder pastoral e liberdade greco-romana
    • O cuidado como índice de resistência
    • Arte de si e o espelho da clínica: entre Foucault, Machado de Assis e Guimarães Rosa

 

Bibliografia

ARENDT, Hannah. “Trabalho, Obra e Ação”. In: Cadernos de Ética e Filosofia Política. 7, 2/2005, p. 194.

________. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos V: Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

__________. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

__________. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

__________. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

__________. “O sujeito e o poder”. In: DREYFUS, Hubert L.; RABINOW, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense, 2013.

__________. “Como se exerce o poder? ” In: DREYFUS, Hubert L.; RABINOW, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense, 2013b.

HEIDEGGER, Martin. Marcas do caminho. Petrópolis: Vozes, 2008.

___________. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2009.

___________. Conceitos fundamentais da metafísica (Mundo-Finitude-Solidão). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

___________. Além do bem e do mal – Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

___________. Assim falou Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Trad. de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

 

Duração:

12 aulas de 2 horas cada, totalizando 24 horas de aula. Verifique os dias e horários dos cursos na agenda.

 

Modalidades:

Presencial - O curso é ministrado na Rua Paracuê, 157 - Sumaré - São Paulo/SP (próximo à estação Vila Madalena do metrô).

Acompanhamento remoto - Transmissão online ao vivo das aulas por meio da plataforma Eventials.

 

Em ambas as modalidades o aluno tem acesso às gravações em vídeo das aulas ministradas. Os vídeos estarão disponíveis para serem assistidos ao longo do semestre nas plataformas de hospedagem.

Para acompanhar os cursos somente pelas gravações, a inscrição deve ser feita na modalidade de acompanhamento remoto.

 

Valores:

Presencial - 4x R$ 320

Acompanhamento remoto - 4x R$ 230

 

Descontos:

  • 50% de desconto na primeira mensalidade para matrículas até o dia 11/01/2019.
  • 25% de desconto na primeira mensalidade para matrículas até o dia 08/02/2019.
  • Ao se matricular em mais de um curso o aluno recebe 20% de desconto no valor total das inscrições.
  • Alunos do semestre passado recebem 15% de desconto no semestre atual.
  • Descontos não cumulativos.

 

Alexandre Marques Cabral é licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Bennett, possui bacharelado eclesiástico em Filosofia pelo Seminário São José do Rio de Janeiro, é bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), licenciatura em Teologia pela Universidade Santa Úrsula, é mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutor em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e, atualmente, cursa doutorado em Teologia na PUC-RJ. É professor adjunto do departamento de Filosofia da UERJ e professor de Filosofia do Instituto Federal Colégio Pedro II. Atua nas áreas de metafísica, filosofia da religião, mística, fenomenologia, pensamento medieval, Heidegger e Nietzsche.