Psicologia pós-identitária: (re)pensando a psicologia entre Nietzsche, Heidegger e Foucault

Professor Alexandre Marques Cabral

Psicologia pós-identitária é uma expressão que visa a assinalar um modo de pensar-fazer psicologia que não se movimenta no interior de regimes discursivos identitários. Isso porque o que se entende por regime discursivo identitário se identifica com um modo específico de conceber a noção de identidade, a saber, o modo metafísico, que promove a moralização da existência e dos saberes “psi” em geral, por meio da produção de ideais reguladores universalmente válidos, geralmente possuidores de substancialidade ontológica. Exatamente a relação entre metafísica e identidade acaba por transformar as práticas “psi” em índices de moralização e retificação da existência. Isso acaba por retirar da condição humana a possibilidade de performar-se criativamente ou singularmente, fora dos quadros normativos e códigos morais universalizáveis.

Para que consigamos pensar uma psicologia pós-identitária, operacionalizaremos alguns autores que viabilizem pensar a possibilidade de um saber-fazer “psi” fora da normatividade dos discursos identitários. Dessarte, começaremos com a caracterização da desnaturalização nietzschiana da noção metafísica de psiquismo. Nietzsche, por meio da afirmação-constatação do acontecimento histórico-ontológico da morte de Deus, assinala a necessidade e a urgência de “superação do homem”, expressão que depende diretamente da perda dos referenciais metafísicos da tradição. Dessa forma, surge a tarefa da criação-cultivo do além-do-homem, tipo vital que se estrutura por meio de um modo de ser refratário a toda e qualquer normatização metafísico-identitária. Com a tematização do pensamento nietzschiano, conquistaremos o horizonte hermenêutico necessário para se compreender o lugar e a tarefa da psicologia pós-identitária.

Em um segundo momento, será preciso caracterizar a noção metafísica de identidade e seus efeitos normatizadores, isto é, produtores de certos modos de ser moralmente codificados. Ora, se a noção metafísica de identidade fabrica vida normatizadas, qual é o modo de ser da “vida”, que a permite ser configurada por algum processo de normatização? Trata-se de um modo de ser existencial, que inicialmente não é marcado por qualquer propriedade identitária, mas que, historicamente, torna-se refém de certas identidades culturalmente hegemônicas. Daí a necessidade de se questionar qual a relação entre existência e identidade, em diálogo com autores como Heidegger, Sartre e Arendt.

A partir da tematização anterior dos conceitos de identidade e existência, é preciso questionar a relação entre identidade e sujeição, uma vez que regimes prático-discursivos de normatização sempre produzem existências sujeitadas. Para compreender essa relação, é mister percorrer alguns elementos do pensamento foucaultiano para pensar como diversas forças de estruturação culturas (poderes) configuram existencialmente o sujeito sob o modo da sujeição.

Por fim, devemos caracterizar um dos exercícios de poder hegemônicos da nossa cultural, a saber, o poder pastoral, que funciona tanto no cristianismo dos primeiros séculos, quanto nas práticas clínicas da psicologia moderna. A partir disso, devemos enfrentar a questão: como se estrutura a clínica fora do poder pastoral e do modo como tal poder fabrica existências sujeitadas por modos identitátios de ser? Lançaremos mão da ideia foucaultiana de cuidado de si e da noção de espelho presente tanto em Foucault, quanto em Guimarães Rosa e Machado de Assis para pensar uma clínica da arte de si, clínica esta que não se orienta pela noção de identidade.

 

Conteúdo programático:

1. Nietzsche e a desconstrução do psiquismo:
       - Da morte de Deus à genealogia do sujeito psicológico;
       - Da superação do “homem” à performance do além-do-homem;
       - Corporeidade e psiquismo;
       - Sobre a outra tarefa da psicologia.

2. Identidade e existência:
       - Identidade e normatização moral;
       - Variações da performatividade existencial: dialogando com Heidegger e Sartre;
       - A unicidade existencial: entre Heidegger e Hannah Arendt.

3. Subjetividade e sujeição:
       - Da impropriedade às relações político-culturais de poder: uma questão foucaultiana;
       - Sujeição e poder: entre Foucault e Butler;
       - Dois exemplos de subjetividade sujeitada: sobre o poder disciplinar e o dispositivo de sexualidade.

4. O poder pastoral e a clínica da arte de si:
       - Poder pastoral e a hermenêutica do sujeito;
       - Contrastando poder pastoral e liberdade greco-romana;
       - O cuidado como índice de resistência;
       - Arte de si e o espelho da clínica: entre Foucault, Machado de Assis e Guimarães Rosa.

 

Bibliografia:

ARENDT, Hannah. “Trabalho, Obra e Ação”. In: Cadernos de Ética e Filosofia Política. 7, 2/2005, p. 194.

________. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.

FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos V: Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

__________. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

__________. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

__________. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

__________. “O sujeito e o poder”. In: DREYFUS, Hubert L.; RABINOW, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense, 2013.

__________. “Como se exerce o poder? ” In: DREYFUS, Hubert L.; RABINOW, Paul. Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense, 2013b.

HEIDEGGER, Martin. Marcas do caminho. Petrópolis: Vozes, 2008.

___________. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 2009.

___________. Conceitos fundamentais da metafísica (Mundo-Finitude-Solidão). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

___________. Além do bem e do mal – Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

___________. Assim falou Zaratustra – um livro para todos e para ninguém. Trad. de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

 

 

Duração:
12 aulas de aproximadamente 2 horas cada, totalizando cerca de 24 horas de aula. 

 

Valores:
R$1.100,00 à vista (boleto bancário e cartão) ou em até 6x de R$212,53 no cartão de crédito.

 

Inscrição:
https://www.eventials.com/INSTITUTODASEIN/courses/psicologia-pos-identitaria-1o-semestre-2019/

 

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Alexandre Marques Cabral é licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Bennett, possui bacharelado eclesiástico em Filosofia pelo Seminário São José do Rio de Janeiro, é bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), licenciatura em Teologia pela Universidade Santa Úrsula, é mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutor em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e, atualmente, cursa doutorado em Teologia na PUC-RJ. É professor adjunto do departamento de Filosofia da UERJ e professor de Filosofia do Instituto Federal Colégio Pedro II. 
Atua nas áreas de metafísica, filosofia da religião, mística, fenomenologia, pensamento medieval, Heidegger e Nietzsche.
Autor de diversos livros na área da filosofia e afins, tais como "Psicologia Pós-Identitária" (2018), "Fenomenologia da Experiência Mística" (2016), "Heidegger e a Destruição da Ética" (2009), "Teologia da Transgressão" (2017) etc.
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