Existência e Gênero: entre Simone de Beauvoir, Judith Butler e Paul Beatriz Preciado

Professor Alexandre Marques Cabral

O curso Existência e Gênero almeja percorrer a obra de autorxs que promovem uma efetiva reflexão crítica sobre a questão político-existencial de gênero. Trata-se de caracterizar o gênero como constructo histórico-político, por meio da tematização de conceitos que performatizem a corporeidade, desconstruam as bases metafísicas da subjetividade humana e possibilitem pensar formas alternativas de existência às diversas práticas e discursos que instituem e normatizam binarismos de gênero e as práticas sexuais. Para tanto, é necessário pensar como o gênero é construído é naturalizado por meio da noção biológico-metafísica de natureza sexual ou sexo. Por outro lado, pensar formas de insubmissão às normatividades de gênero é condição sine qua non para se conquistar um horizonte de compreensão das possibilidades históricas de resistência de certas subjetividades violentamente submetidas às normas reguladoras de gênero/sexo. Estrategicamente, percorreremos as obras de Simone de Beauvoir, Judith Butler e Paul Beatriz Preciado, para uma reta tematização da relação entre gênero, normatização político-existencial e resistência.

Ao assinalar que a mulher tornou-se esta mulher historicamente constituída como outro do homem, Simone de Beauvoir visa a mostrar que a mulher foi produzida socialmente como segundo sexo, isto é, como “essencialmente” subjugada ao arco semântico que define o que é o homem, este compreendido como o absoluto da condição humana. Ora, se a mulher é um devir (tornar-se) histórico específico, então, não há qualquer base biológico-metafísica de definição do “que” é a mulher, uma vez que ela, assim como todo ser humano, é marcada pela negatividade que caracteriza todo ser existencialmente constituído. Por isso, é possível ser de outro modo, vir a ser outra e não se submeter às formas normatizadoras de fabricação da mulher como outro.

Por sua vez, Judith Butler tematiza a noção de gênero por meio de um aparelho conceitual derivado, em seus aspectos centrais, da obra de Foucault. Nesse sentido, ela interrelaciona discurso e poder e os pensa como índices de fabricação da subjetividade e do gênero. Nesse sentido, a identidade de gênero acaba assinalando a copertinência politicamente constituída de sexo (considerado um fato biológico), gênero, desejo e prática sexual. Tal copertinência não somente hierarquiza e “binariza” gêneros, como inviabiliza modos de realização do desejo e de certas práticas sexuais. Contudo, ao assinalar que todo sexo é, em verdade, gênero, Butler abre o horizonte para se pensar outras possibilidades de ser fora das normatividades de gênero. Nesse sentido, o gênero pode ser ressignificado ou parodizado, como no caso dx drag queen/king. Aí se encontra uma efetiva possibilidade de resistência.

Por fim, Paul Beatriz Preciado assinala que todo sexo é plástico, orientando-se pela metaforização do dildo, pênis de plástico ou borracha que acaba por mostrar a plasticidade do sexo e do corpo como um todo. Essa desconstrução da pretensa substancialidade do corpo acaba por ressignificar a noção de cu, que, diferentemente do pênis e da vagina, está presente em todo ser humano, servindo de paradigma para ressignificação da corporeidade como um todo, além da sexualidade e da questão de gênero. Dessa forma, é possível pensar em um contrato contrassexual, que coloque em xeque a pretensa natureza sexual do ser humano.

Tudo isso deve ser estudado ao longo do curso, além de outros conceitos que favoreçam o desenvolvimento dos objetivos assinalados. 

 

Conteúdo programático:

1. Simone de Beauvoir e a crítica existencial de gênero:

- A mulher como outro e a realidade do segundo sexo;

- Estratégias de má-fé e a condição histórica da mulher;

- Da ambiguidade moral às práticas de liberdade: uma análise de Por uma moral da ambiguidade;

- A atualidade de Simone de Beauvoir no feminismo contemporâneo: o exemplo de Grada Kilomba.

 2. Judith Butler e a crítica da razão de gênero:

- Gênero como problema (trouble): elementos centrais da prática genealógica de Butler;

- Violência e identidade de gênero: da heterossexualidade compulsória à violência dos sistemas binários;

- Genealogia dos corpos abjetos: sobre a materialidade discursiva do corpo;

- Corpo, sujeição e resistência: paródia e ressignificação de gênero.

 3. Paul Beatriz Preciado e o contrato contrassexual: 

- O que é contrassexualidade?;

- O dildo e a sexualidade plástica;

- A onipresença do cu;

- Sobre os corpos indóceis.

 

Bibliografia:

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967.

__________. Moral da ambiguidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.

BUTLER, Judith. "Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do 'sexo'". In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

________. A vida psíquica do poder: teorias da sujeição. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

_______. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

PRECIADO. Paul Beatriz. Manifesto contrassexual. São Paulo: N-1, 2017.

__________. Texto Junkie: sexo, droga e pornografia na era farmacopornográfica.. São Paulo: N-1, 2018.

 

Duração:
12 aulas de aproximadamente 2 horas cada, totalizando cerca de 24 horas de aula. 

Valores: 
R$1.100,00 à vista (boleto bancário e cartão) ou em até 6x de R$212,53 no cartão de crédito.

Inscrição:
https://www.eventials.com/INSTITUTODASEIN/courses/existencia-e-genero-1o-semestre-2019-aula-01-de-12/

 

Confira a primeira aula do curso gratuitamente clicando aqui.

 

Alexandre Marques Cabral é licenciado em Filosofia pelo Centro Universitário Bennett, possui bacharelado eclesiástico em Filosofia pelo Seminário São José do Rio de Janeiro, é bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST), licenciatura em Teologia pela Universidade Santa Úrsula, é mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutor em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e, atualmente, cursa doutorado em Teologia na PUC-RJ. É professor adjunto do departamento de Filosofia da UERJ e professor de Filosofia do Instituto Federal Colégio Pedro II. Atua nas áreas de metafísica, filosofia da religião, mística, fenomenologia, pensamento medieval, Heidegger e Nietzsche.
Autor de diversos livros na área da filosofia e afins, tais como "Psicologia Pós-Identitária" (2018), "Fenomenologia da Experiência Mística" (2016), "Heidegger e a Destruição da Ética" (2009), "Teologia da Transgressão" (2017) etc.

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